Entrevista: A reação de ‘neutralidade’ da Igreja Adventista para as pesquisas de células-tronco


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Conquanto universidades e companhias privadas mantenham avançadas tecnologias de células-tronco com base em fundos privados, alguns pesquisadores médicos estão na expectativa de possíveis novas verbas federais que ajudem a incentivar a nova onda de descobertas em tratamento médico e curas.

O que se necessita, primeiro de tudo, são de diretrizes mais abrangentes para conduzir tal pesquisa, particularmente as células-tronco de embriões humanos, declara o Dr. E. Albert Reece, vice-presidente de Assuntos Médicos da Universidade de Maryland e Deão da Escola de Medicina.

O Presidente Barack Obama emitiu uma ordem executiva em março suspendendo a proibição de provisão de verbas federais para pesquisa com células troncos embrionárias. Reece, um membro da Igreja Adventista de Spencerville, em Spencerville, Maryland, tem oportunidade de moldar essas diretrizes — ele atua na Comissão Consultiva das Academias Nacionais de Células-Tronco Embrionárias.

Ele destacou que as opiniões expressas nesta entrevista são suas, e não a da Comissão de Diretrizes das Academias Nacionais de Células-Tronco.

As células-tronco, os blocos básicos de construção do tecido corporal, oferece o potencial de curar muitas doenças degenerativas e danos ao organismo, como queimaduras e feridas, declaram os cientistas.

Conquanto as células-tronco adultas já estejam sendo utilizadas para tais propósitos, o tratamento de algumas condições, tais como enfermidades neurológicas, pode requerer o uso de células embrionárias. Anteriormente, isso requereria a destruição de um embrião. Contudo, novas pesquisas, conquanto ainda na fase inicial, oferecem a possibilidade de utilizar tais células sem sacrificar um embrião.

Numa entrevista telefônica de seu consultório em Baltimore, ele expôs em termos simples o debate a respeito de pesquisas com células-tronco embrionárias, que são aquelas que sobram da fertilização ‘in vitro’, e tipicamente seriam descartadas.

Suas extensas qualificações incluem uma graduação médica da Universidade de Nova York, residência na Universidade Columbia, uma bolsa de estudos para a Universidade Yale, onde serviu subsequentemente como membro do corpo docente, um doutoramento em bioquímica pela Universidade das Índias Ocidentais, de Kingston, Jamaica, e um mestrado pela Faculdade de Negócios da Universidade Temple, da Pensilvânia. O nativo da Jamaica é também um especialista mundialmente famoso em complicações de diabetes durante a gravidez, e este ano está servindo como presidente do conselho nacional de deões das 130 faculdades de Medicina dos EUA.

Reece, de 59 anos, é descrito por muitos colegas como humilde. Alguns pesquisadores se gabam por terem escrito uma dúzia de artigos especializados. Alguns de seus colegas dizem que Reece raramente revela que já redigiu sozinho, ou conjuntamente, mais de 500 artigos, capítulos e ‘abstracts’ para publicações, e vários livros. Eis trechos da entrevista com ele:

Rede Adventista de Noticias: Por que assumiu esse posto?

Dr. E. Albert Reece: Eu gosto de liderar. Penso que me dá oportunidade para causar um impacto direto, abrangente, sobre a assistência de saúde, não só de uma perspectiva clínica, como também no enfoque sobre pesquisa. A Universidade de Maryland está em sétimo lugar entre as 75 faculdades de medicina públicas, que dão enfoque a pesquisa, e tenho condições de continuar minhas próprias pesquisas aqui. Também estou envolvido com muitas atividades que requerem que eu esteja em Washington, D.C., com frequência, assim a localização é estratégica.

RAN: Como definiria o seu estilo de liderança?

Reece: Eu emprego o termo “liderança colegiada” para descrever o meu estilo. Creio que por empregar essa metodologia, as pessoas cooperarão porque desejam fazê-lo. Tenho tentado mostrar-lhes que é bom ser parte da equipe de colegas, tentando fazer uma diferença, ou tentando encontrar uma cura. Trabalhamos juntos como uma equipe de colegas, enquanto eu estabeleço o tom.

RAN: Acha que a sua fé restringe sua atuação em qualquer forma?

Reece: Não, penso que não.

RAN: A Igreja Adventista não tem uma declaração sobre pesquisa com células-tronco. Por que acredita que a Igreja seja ambivalente quanto a essa questão?

Reece: Houve um grupo ‘ad hoc’ ao qual eu servi e que discutiu todo o cenário de células-tronco. A Igreja não o incorporou nem o rejeitou. Estamos lidando com uma Igreja de amplitude mundial, com variadas perspectivas, de modo que isso possivelmente explique a posição de neutralidade. Certamente sei que a comunidade cientifica dentro da Igreja tem um entendimento geral do que é ético, apropriado, razoável e coerente com as doutrinas adventistas.

RAN: Em sua opinião, pode um beneficio potencial a outros seres humanos justificar a destruição de um embrião humano?

Reece: Bem, é isso que nós [do grupo ‘ad hoc’ da Igreja] dissemos: não podíamos apoiar, endossar ou incentivar a criação de embriões para o expresso propósito de destruí-los visando às pesquisas com células-tronco. Contudo, se embriões de sobra serão destruídos e descartados, empregar esses embriões para pesquisa, já que se destinam à destruição, seria apropriado. Esta pesquisa poderia melhorar a qualidade de vida para algumas pessoas e salvar a vida de outras.

RAN: O que pensa da ordem executiva do Pres. Obama de suspender os limites de verbas federais para pesquisas com células-tronco embrionárias?

Reece: Creio ser uma decisão razoável. O que precisa acontecer, contudo, é a criação de diretrizes razoáveis. Eu atuo na comissão de diretrizes sobre pesquisas de célula-tronco das Academias Nacionais, e de fato uma das coisas que esperava fazer era apresentar uma posição adventista oficial, que não temos até o presente. A posição católica já foi apresentada. Assim eu estava muito ansioso de apresentar nossa posição adventista, mas acho que não posso. Neste momento, creio que o primeiro passo que o Presidente tomou é razoável. Nossa comissão ajudará a elaborar importantes diretrizes para a comunidade cientifica.

RAN: Com que grau de certeza pode dizer que a tecnologia de células-tronco poderia oferecer algumas curas?

Reece: Bem, podemos dizer que com um elevado grau de certeza. Mesmo agora, as células-tronco são empregadas para certos tipos de terapia, certos tipos de leucemias ou cânceres de sangue. Uma porção de conquistas foi já obtida empregando-se as próprias células-tronco das pessoas. Há muito trabalho experimental mostrando alguns benefícios do uso de células-tronco para lesão da medula espinal. De fato, o FDA [entidade federal americana para controle de medicamentos] acaba de aprovar o primeiro teste clínico com células-tronco para lesão da medula espinal. A Universidade de Maryland fará parte dos programas nacionais de testes clínicos. Então creio que, com base na experiência de utilização de células-tronco adultas e com base no trabalho experimental com células-tronco embrionárias, ou mesmo células-tronco adultas que tenham sido induzidas a se tornarem mais semelhantes às células-tronco embrionárias, há muita esperança de que os benefícios serão sentidos nos próximos anos.

RAN: Qual é o cerne do debate moral sobre células-tronco?

Reece: O debate do aspecto moral é muito focado sobre células-tronco embrionárias humanas. É sobre o conceito de um embrião, dever, em qualquer fase, ser considerado uma vida. Alguns vão dizer que se tratam apenas de células que começam a coalescer. Outros dirão que essas células representam uma vida que já se iniciou, e utilizar as células é um erro. Este é o debate. No entanto, há cientistas que realmente demonstraram que podem remover apenas uma célula e permitir que as outras evoluam em vida humana. Então, basicamente, você não teria interrompido o desenvolvimento de uma vida humana. Meu ponto de vista é de que há um debate moral saudável, e isso tem forçado os cientistas a chegar a formas criativas de dar resposta a esses argumentos. A outra questão diz respeito aos embriões que serão jogados no lixo. Alguns acreditam que a sua utilização para a investigação é uma opção melhor do que a sua destruição.

ANN: Algumas pessoas especulam que a expansão da investigação irá criar um mercado para embriões que sobram. Como reagiria a isso?

Reece: Bem, esse é um tipo de coisa como tudo quanto se passa no mundo — esses males e vícios não deviam ocorrer. Minha reação é de que não é adequado ou justo dificultar a pesquisa razoável e ética que poderia acarretar em benefício humano porque [isso possa ocorrer]. Precisamos ter as devidas diretrizes e salvaguardas para assegurar que esses resultados adversos não venham a se passar.

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